MInicontando é um lugar para inventar histórias!
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Assim, em frente ao espelho, olhava seu corpo. Pernas bonitas, seios firmes, olhos grandes. Cabelo preto e brilhante. As unhas bem feitas - vermelhas. A boca perfeita que sabia beijar e iludir qualquer um. Podia ser modelo. Mas o pai decidira bem cedo – prostituta.
À noite, quando a casa dormia, escondida, ela escrevia poesias. Dizia do que via nos dias, no vento, na chuva. Dizia do que sentia e não revela a mais ninguém. Disse muito, sobre tudo. Tanto, que virou palavras, perdidas nos cadernos, nas paredes, na terra solta do canteiro do jardim.
Quando jogou seu bebê no rio todos a condenaram. Como podiam fazer isso? Ela apenas o livrou da imundícia da realidade, das drogas da favela, da corrupção e da pedofilia.
As mulheres da casa deixavam suas marcas por todos os lados.
A comida, os doces, as pinturas no banheiro, as bonecas. No varal as roupas que dançavam com o vento. O perfume de alfazema nas folhas dos livros e os fios de cabelo comprido na penteadeira. Foi inevitável querer ser uma delas.
Ela temia perdê-lo e vigiava sua vida. Ele não saia de casa, seu contato com o mundo era através da internet. Jogava e conversava, fazia amizades, lia as notícias. Ela cometeu o crime perfeito, por ciúme vendeu o computador.
Sentiu mais a morte dele do que a do outro. Ele nunca condenava suas atitudes, partilhava toda felicidade com ela. Comiam juntos, saiam, ficavam deprimidos em casa nos dias de chuva. O cachorro era sim, muito mais carinhoso do que o marido.
Depois da morte da esposa ele retirou todos os espelhos da casa. Os vizinhos comentaram, ele estava enlouquecendo. Diziam que ele queria esquecer como ela era vaidosa, como passava o dia admirando sua própria imagem, pintando a boca com batom. Todos estavam enganados, ele queria apenas deixar de ver sua infinita tristeza.