Tuesday, July 31, 2007

Perfídia (para a revista Piauí)


O ciúme tornou nossa vida insuportável. Cada roupa nova que eu vestia era motivo para desconfiança, cada perfume, cada olhar lhe causava incerteza. Buscava traição nas minhas palavras, nos meus olhos, na minha alegria. Embora nunca tenha lhe dado um motivo sequer para insegurança a vida dele era objeção.
Não sabia mais qual a maior tortura, o medo de deixá-lo e fazê-lo pensar que eu realmente o traía ou ficar com ele e não poder amá-lo livremente.
Num momento de desespero propus um pacto de morte. Eu lhe falei de um lugar onde nos sentiríamos no deserto. Sua gratidão me confortou. Partimos em silêncio.

Saturday, June 09, 2007

Lucubração


E assim permaneceu por oitocentos e vinte dias, observando cada passo da família, cada trama, cada riso. Limpo, barbeado e arrumado viu o conluio dos seus filhos.
Decepcionou-se, mas permaneceu imóvel.
Em coma.

Monday, May 07, 2007

Compunção


Foi difícil juntar todos os pedaços das fotos rasgadas e jogadas no lixo.

Limpar e colar uma por uma.

Mas seria bom ter uma lembrança dela.
Só lamentou não poder fazer o mesmo com o corpo, que jogara no rio.

Sunday, April 29, 2007

A magia das férias


Menino nunca entende adulto. Às vezes nem quer entender mesmo. Gabriel sempre acreditou ser assim, e pronto.
Mas certamente tinha alguma magia, alguma coisa estranha que acontecia com os seus pais nas férias. Pareciam outros. Nada de brigas ou exigências. Brincavam, corriam. A mãe dava gargalhada. Beijava toda hora.
Por isso quando a professora perguntou o que ele queria ser depois de grande, não teve dúvida:
- Pai em férias.

Sunday, April 01, 2007

Um admirador

Ele confessou ter lido todos os seus livros. Apontando-lhe a arma, bem no meio da cara.
E adorou todos, sem exceção.
- Mas então por que matar-me – perguntou o autor.
Para te dar fama – escritor bom é escritor morto.

Tuesday, March 27, 2007

Insolente amor


Marília era exigente. Sempre foi assim, desde os tempos de namoro. Para casar quis festa, jóias, casa. Depois pediu carro, vestidos.
Por ela João roubou, quase matou. Caprichos e desejos que ele atendia sem reclamar.
Acostumada, pediu o mundo.
Ele ofereceu-lhe todo, direto, pela porta da rua.

Foto: Ian Britton

Loba


Nas noites com lua ela ficava agitada e saia logo que a noite vinha. O marido resolveu segui-la e no escuro da rua viu a transformação.
Os cabelos agora estavam soltos, olhos brilhando, boca vermelha. Pêlos eriçados e músculos entesados em suave rebolado.
Quando parou um carro ela entrou libertina.

Foto: Ian Britton

Tuesday, March 20, 2007

Quando o celular tocou


Não teve chance.
Levou dois tiros.

Necrológio

Nunca imaginou que alguém pudesse durar tanto.
Tantos anos - inerte.
Ele já morrera faz tempo para o mundo, para a vida. Por que insistia em respirar?
Agora iria matá-lo. Sufocá-lo na troca das enfermeiras.
Tramou isso por meses e o desgraçado morreu antes, estragou tudo novamente.

Monday, February 19, 2007

Quarteto

Amélia é casada com João que trabalha na obra. Edifício alto, de onde ele vê Joana que vai para a praia. Joana desfila pra ele mas dá para Carlos, o engenheiro.
Obra acabada – amores desfeitos em cimento e areia.

Foto: Ian Britton