Todos estavam na internet. João aprendeu logo, nos intervalos, depois que limpava o escritório. Conheceu Flávia. Quis conhecê-la pessoalmente, mas achou que ela não viria de tão longe. Ela veio e nunca mais foi embora.
Pena que a foto, não era dela.Foto: Ian Britton
Quando avisaram do acidente fatal, Maria escondeu-se para rir da sua felicidade.Foto: Ian Britton
Autoritário e cruel, mesmo ausente, ele ainda estava lá.Foto: Ian Britton
Desde menino acreditava ter poderes. Podia ouvir o que os outros pensavam, fazê-los agir sob o seu comando.
Gostava de imaginar que podia mudar o rumo das coisas.
Mandava embora o homem do jornal. Fazia seu nariz sangrar.
Naquele dia exagerou, cruzou a rua sem olhar.Foto: Ian Britton
Velório do chefe.
Ele aproximou-se da viúva e cochichou-lhe ao ouvido:
- Gostosa!
Ela corou excitada.
O marido permaneceu branco e gelado.Foto: Salvador Dali
Um inquilino habitava seu corpo. Falava quando ele não queria ouvir, sussurrava idéias obscuras e traiçoeiras.
Vingança e morte era o que ele queria.
Sim, o assassino era ele.
Do outro lado das grades – a liberdade.
Mas fazer o quê depois de 30 anos na prisão?
Morreu enforcado, um dia antes de ter cumprido a pena.
Todos vieram para a leitura do testamento.
Até Tobias, o cachorro, e único herdeiro.
João acostumou-se a trabalhar duro desde cedo. Apesar da vida não lhe dar moleza, seu coração era leve e singelo. Suas mãos, ásperas e fortes. Há anos trabalhava no lixo. Catar, separar, vender.
Já tinha visto de tudo. Fotos, roupas, livros, pássaros e cachorros mortos. Um feto, humano. Neste dia ele teve certeza – o homem dilui-se no lixo.
Ele sempre reclamava da comida, mas comia tudo. Raspava o prato e limpava a boca na ponta da toalha branca da mesa.
O veneno deixou as toalhas eternamente limpas.