Voltava do trabalho, no meio da rua aquela linda bola de futebol, novinha. Por um momento quis ser criança novamente. Só pensar nos brinquedos, correr e suar, aproveitar o tempo, ver o tempo passar e querer que passe mais rápido, até o natal. Não pensar em contas ou em dinheiro. Comer doces e mais doces. Gelar a garganta com refrigerante. Adorar férias e não ter que planejá-las. Dormir quando der sono e acordar quando passar.
Fechei os olhos e chutei bem forte. Tive que correr.
Quebrei a janela do vizinho.
O médico foi taxativo, quase cruel. Ele tinha dois meses de vida, não mais. O medo lhe roubou a vida. Foi morrendo, foi sumindo.
Duas semanas, nada mais.
Quando o médico percebeu o engano, já era tarde para avisar, ele tinha decidido morrer.Imagem: Salvador Dali
Tarzan era seu ídolo, com Johnny Weissmuller. Assistiu a muitos filmes, várias vezes. Sonhava com a natureza, com floresta exuberante e cachoeira. Enfrentava feras, voava pendurado nos cipós.
Caiu do andaime, morreu esmagado na selva – de pedra.
Foto: Luiz A Ferreira
Ele sabia, e respeitava. Sua mulher era uma fera. Ciúmes em forma de gente. Nos últimos dias ela andava na vigília querendo descobrir-lhe algum deslize. Como felino a espreitar a caça. Nervosa.Azar do ladrão que tentou roubar as roupas no varal. Apanhou feitobicho. Só pedia ao delegado:- Doutor, me prende só não fala que foi mulher, por favor.
O avô contava pedaços da sua vida.
Menino, escutava tudo, até que a sombra da bengala não riscasse mais a calçada e a brisa trouxesse o cheiro de bolo quase pronto.
Nada mais importava, só as histórias repetidas para um dia repetir.
A mãe tinha dúvida sobre a virgindade da filha.
As bonecas empoeiradas e esquecidas na estante, não.
O marido era motorista de ônibus. Levavam vida simples com muitos sonhos arquivados.
Mas as coisas começaram a mudar de repente. Ele ficou mais alegre, mais carinhoso, árdego. Depois, com mais dinheiro, reformou a casa, comprou carro e tudo mais que a mulher pedia.
As cunhadas desconfiaram e diziam que a irmã deveria duvidar, seguir o marido. Marília não quis saber, estava feliz.
Mas elas descobriram tudo, ele tinha uma amante e rica. Fizeram pressão, ameaçaram e o romance acabou.
Marília rompeu com toda a família, para sempre.Foto: Ian Britton
As panelas brilhavam, o fogão também, tudo bem areado.
As desilusões e amarguras, Maria extravasava na cozinha.
Sempre sonhou com príncipe, não de riqueza ou coroa. Realeza no carinho, no amor sincero e incondicional.
Não foi possível.
A vida lhe deu somente um homem, calado e trabalhador.Foto: Ian Britton
Hoje ela resolveria o problema.
Saiu com toda coragem e a arma na bolsa.
Seguiu o marido que entrou sozinho no cinema.
Filme pornô - na sessão da tarde.
Ele saiu suado, olhar morno e satisfeito.Foto: Ian Britton
A mãe não tolerava a presença de Marília. Sempre dava um jeito de arrumar uma desculpa para mandá-la embora. Mas as meninas cresceram e a vida tratou de afastá-las. Anos depois encontraram-se em um salão de beleza. Anita reconheceu a amiga que não via desde a infância. Marília agora era cartomante, disse que estava muito bem.
Só na saída Anita descobriu que sua mãe tinha razão.
Sua carteira fora roubada.Foto: Ian Britton